Guerra do Tomate – João Perroni

Na década de 60, Taquaritinga conviveu com um título deveras saboroso: Capital Mundial do Tomate. O fruto que dava em vara, cerca e até rasteiro enfartou de prazer os produtores da região. Algumas indústrias aproveitaram, se instalaram e também lucraram com este suculento e reluzente carnudo vermelho, de origem peruana, com formatos redondo, oval e pera.

Só os circunvizinhos das indústrias é que enjoaram do vermelhoso bem mais cedo. Caminhões e mais caminhões, enfileirados frente às casas aguardavam a vez de descarregarem nas esteiras o principal produto de extratos, sucos e molhos, enquanto o caldo dos maduros prensados pela carga excessiva vazavam malcheirosos pelo meio-fio. O período extremo da safra coincidia com o nosso festivo agosto da cidade, das ventanias e dos cachorros loucos. Atividades que nos prazeiravam de cansaço físico e intelectual, fartavam.

A Associação Acadêmica de Taquaritinga promovia, através da semana universitária, shows, teatros, rodas de samba, gincanas, exposições, palestras, bailes, festivais de música e poesia, aqua-loucos, campeonatos esportivos, festa do chope (Poker da Cervejaria Paulista), e o “scambau”. Carnaval?… Era aperitivo perto do desgaste ativo proporcionado pela semana.

Porém, uma dentre todas estas atividades, era particularmente organizada pelo saudoso amigo Tulipa (Paulo Roberto Scandar). Baile do aniversário da cidade rolando solto no Clube Imperial não impedia que o “Turco” começasse a esquematizar o que acredito ter sido o seu mais belicoso prazer.

Conectado com seu amigo e gerente da Indústria Paoletti (Oscar Guedes Barreto), Paulo se apossava de dezenas de caixas dos tomates, pra lá de maduros e, solitário em seu “jeep”, as transportava para um local periférico, estrategicamente escolhido e todo ano alterado. Neste último embate o campo de batalha escolhido foi a Avenida da Talavasso, atualmente a do Tiro de Guerra.

Como curiango, o sorrateiro estrategista demarcava o território: na pista um monte aqui e outro dez metros dali, divisados pelas caixas de madeira, feito fronteira a ser respeitada por Estados conflitantes. Depois do campo preparado, voltava para a esquina do Bar do Né e se plantava, feito general pleno de estratégias, aguardando o final do baile onde uma dezena de nós éramos arregimentados, postos a par das táticas e caroneados no militaresco “jeep” até o “front”. Divididos democraticamente por um par ou ímpar, cinco pra cá, cinco pra lá, tirávamos os paletós, afrouxávamos as gravatas e fardados de sapatos, calças e camisas social iniciávamos o embate.

Trintantos minutos depois findávamos o fétido combate. Quem por ali passou e nos viu, desacreditou. Realmente, parecíamos restolho humano de alguma batalha e no mínimo surreais espaguetões ao sugo napolitano. Sentado no capô do seu jipão, exaurido de tanto rir, o estrategista do molho premiava com aplausos perdedores e vencedores. Rapidinho nos caroneava, feitos farrapos à bolonhesa, para nossas casas onde preocupadas mães, balançando vassouras, tal qual pêndulos, aguardavam entre um misto de susto, vergonha e remorso, pelos queridos filhos, retornando da Guerra do Tomate.