As praças no meio do caminho

BRANCA NUNES

Quando morei em Londres, o professor da escola onde estudava perguntou aos alunos qual deles morava a menos de 200 metros de um parque ou uma praça. Todos levantaram as mãos. Uma das coisas fantásticas da capital inglesa é justamente essa: a abundância de áreas verdes. Não só o Hyde, o Regent’s ou o St. James’s Park, verdadeiras apoteoses. Em meio às dezenas de pubs, centros culturais, cinemas e lojas, pipocam pela cidade centenas de pequenos oásis que servem tanto para momentos de lazer e descanso quanto como locais de almoço – no verão, é comum ver gente de terno e gravata comendo nesses lugares os lanches, saladas e bandejas de sushi que compram em supermercados e restaurantes dos arredores.
Penso nisso quando vejo as praças desertas de São Paulo e Taquaritinga. Por que reclamamos tanto da falta desses espaços se não usufruímos dos que já existem? Na capital paulista, muitos foram tomados por barracas de moradores de rua. Em Taquá, o estado das praças é calamitoso.
Na primeira crônica publicada nesta coluna, falei da Estátua do Soldado Expedicionário abandonada na Praça Doutor José Fu-riati, a “Praça do Hospital”. Título: “A praça onde o soldado só não perdeu as botas”. O texto lembrava que aquele homem de bronze havia primeiro perdido sua espingarda, depois as mãos, a perna e outras partes do corpo, até que restaram apenas os calçados.
Quando passei por ali na minha mais recente temporada por Taquaritinga, o Sylvio, meu marido, disse brincando que o soldado enfim havia perdido as botas, uma vez que, a poucos metros de distância, enxergávamos apenas arbustos circundando o lugar onde ele costumava estar. Senti uma mistura de alívio e tristeza ao chegar bem perto e ver que as botas continuavam lá. Não sabia se sorria, por constatar que de alguma forma aquele soldado ainda existia, ou se lamentava a opção escolhida: em vez da restauração, preferiram a camuflagem.
O irônico é que, quando se observa o estado da praça como um todo, as plantas em volta do que foi aquela estátua estão muito bem cuidadas. Bem ao lado, o mato que cresce entre as pedras portuguesas tem mais de 30 centímetros de altura, as guias estão quebradas, os bancos malcuidados e as alamedas esburacadas.
Tenho um carinho especial por esse local, onde aprendi a andar de bicicleta. Hoje, se houvesse crianças ali, estariam brincando de corrida de obstáculos.